PENSATA

Um espaço de leitura e reflexão dedicado a todos os que têm feito a diferença na igreja e na sociedade brasileira.  Semanalmente publicaremos textos relevantes que contribuam com a causa do Evangelho puro e simples.

03/01/2020

Pastor João Paulo Berlofa

Mogi das Cruzes - SP

CAPAZ DE REPENSAR DOGMAS ESTABELECIDOS COMO ABSOLUTOS

Um dos maiores problemas dos fundamentalistas religiosos é a falta de diálogo. Eles criaram uma caixa de “verdades” e não estão dispostos a uma dialética. Coisas que foram estabelecidas a centenas ou milhares de anos, por pessoas que viveram em uma sociedade e época completamente diferente da nossa, ainda são tratadas como verdades absolutas, e quaisquer tentativas de repensar essas “verdades” são demonizadas por esses religiosos.

Nasci e cresci dentro da igreja cristã, fui ordenado ao ministério pastoral aos 30 anos, mesmo enxergando milhares de defeitos na igreja continuo do lado de dentro dela, dedico minha vida e estudos à teologia, pastoreio uma comunidade evangélica, por isso me sinto no direito e obrigação de pensar e repensar alguns desses dogmas.

Então, inicio esse ano com uma série de textos sobre assuntos que PRECISAM ser discutidos com URGÊNCIA, mas que muitas pessoas nem abrem esse diálogo por medo de estarem pecando ou coisa do tipo.

Pautas como aborto, drogas, homossexualidade, inerrância bíblica, machismo e outros assuntos que infelizmente ainda são tabus dentro das igrejas, serão abordados aqui.

Não imagino que vou mudar a cabeça de todos através desses textos, mas pretendo atingir aqueles que, mesmo divergindo da minha opinião sobre o assunto em questão, estão dispostos a entender meus porquês.

Responderei dentro do possível, todos os comentários. Duvidas sinceras, questionamentos argumentativos e ponderações lúcidas serão bem-vindas e respondidas. Idiotas que só querem causar e acusar, ou se sentem donos da verdade, serão ignorados com grande prazer de minha parte.

Se você gostou dessa minha proposta, peço que compartilhe em suas redes sociais. Vamos desmistificar e desdemonizar alguns temas que têm sido mal falados (nos dois sentidos) dentro das igrejas.

Pr. João Paulo Berlofa.

 

A FAVOR DA DESCRIMINALIZAÇÃO DO ABORTO

Antes de começar de fato no texto, preciso dizer algumas coisas:

No exato momento que estou escrevendo isso, minha esposa está ao meu lado, dormindo, grávida de oito meses do Caetano, e não há nada nesse mundo que eu ame mais que eles. Semana passada acolhi e atendi uma mulher que se encontrou grávida e estava disposta a abortar. Creio que devido a minha situação de “grávido” foi um aconselhamento pastoral doloroso para mim.

Estou dizendo isso para que você entenda que por trás desse texto tem um ser humano, um pai de uma menina de oito anos e um menino que nascerá daqui a trinta dias. Estou apelando para essa veia sentimental, pois infelizmente, um dos argumentos dos fundamentalistas sobre esse assunto, é tentar desumanizar quem apoia a descriminalização do aborto.

Preciso também dizer, que nesse assunto o lugar de fala é das mulheres, pois a gravidez é algo exclusivo no corpo delas. Então, falarei a partir das minhas limitações de homem, em minha posição de pastor.

Talvez alguém esteja pensando: “Aborto é coisa de feminista, louca, drogada, ateia, que engravidou numa suruba na PUC”. Mas para sua surpresa, pesquisas mostram que 88% dos abortos são feitos por mulheres casadas, que já são mães e cristãs.

A maioria dos abortos não acontece entre as feministas e sim dentro das igrejas, porém as feministas são as únicas que falam sobre.

Dito tudo isso, podemos prosseguir.

Toda a minha fala aqui estará baseada em um pilar — a sacralidade da vida. Para mim, como cristão, não há nada mais sacro do que a vida humana, sendo esta indiscutível e impossível de valorizar (dar valor, colocar preço). Não temos a métrica que mede o valor de cada vida, essa é exclusiva do criador.

Toda a minha teologia e ideologia está alicerçada na VIDA, e justamente por ser um pró vida, penso que nossa sociedade necessita urgentemente de leis pró-aborto.
A criminalização do aborto NÃO DIMINUI a quantidade do mesmo, pelo contrário, essas políticas têm ajudado e muito no aumento de mortes, não só dos fetos, mas também das mulheres (pobres) que procuram esse recurso.
Vale ressaltar aqui que para mulheres ricas o aborto não é um problema, pois elas pagam pela “legalidade”.
As políticas pró aborto, sem dúvida alguma, diminui consideravelmente a quantidade de mortes de mulheres que optam por esse procedimento.

Agora vamos falar do feto, ou melhor dizendo — o bebe.
Sim, para mim o feto já é uma vida, para a fé cristã a vida começa no exato momento da concepção, e independente da formação neural ou do sistema nervoso do feto, fato é, que se nada interromper o processo de vida, aquele feto se tornará um ser humano.

Eu não gosto do argumento “feto não é vida, por isso pode abortar”, e já quero dispensa-lo aqui, e ainda sim continuar em defesa da descriminalização.

Não vamos esconder nada aqui ok? Se o feto é vida, logo o aborto é sim uma interrupção de vida, e como os cristãos gostam de falar, é sim um pecado. Mas não vamos esquecer que nosso estado é laico, e nossa fé NÃO DEVE interferir em políticas públicas.

Minha ideia aqui também não é romantizar, naturalizar ou aplaudir o aborto, pelo contrário, todo o aborto é triste e deixa marcas impagáveis, mas isso não pode nos impedir de encarar os fatos de frente. O aborto é uma realidade crescente em nossa sociedade, e trata-lo como crime não está ajudando em nada.

Essa é uma boa hora de nos perguntarmos: “Se a criminalização não está agindo pela vida, o que devemos fazer?”

Quero sugerir algumas alternativas:

1. A descriminalização do aborto não é solução e sim paliativo. Liberar o aborto e não tratar as bases da sociedade não vai adiantar.

2. A raiz de quase todo esse problema está na falta de educação sexual para nossos adolescentes. Mas veja só que “engraçado”, os que demonizam o aborto são os mesmos que são contra a educação sexual nas escolas.

3. Fazer a educação sexual e manter as políticas de criminalização também não adianta, pois, criminalizar não promove um ambiente saudável de discussão e abertura às mulheres para tratar sobre o assunto.

4. Aqui acho necessário saber a diferença entre legalizar e descriminalizar, e para isso vou usar um exemplo bobo, porém eficaz para a elucidação de alguns.

Avançar o sinal vermelho com o carro não é legal, porém não é crime.
Quem passa no farol vermelho não é aplaudido nem ovacionado, mas também não é tratado como um criminoso. Existem dispositivos para controle de quem ultrapassa os faróis vermelhos, mas não são dispositivos criminais.
Existem órgãos públicos específicos que promovem a diminuição dos carros avançando os faróis, e não a polícia.
Minha proposta é que o aborto seja descriminalizado, que seja um assunto de saúde pública e não criminal.

Vamos pensar em uma situação, juntos?

Imagine uma menina de dezesseis anos, moradora de periferia, pobre e negra, criada dentro dos padrões morais que permeiam nossa sociedade, e essa menina engravida. Desesperada, desamparada e desinformada, ela decide abortar. Ela não pode contar aos pais, nem à professora, nem ao seu líder de jovens da igreja, afinal o que ela pretende cometer é um crime. Essa menina procura uma clínica clandestina, mais conhecida como açougue, ou busca métodos abortivos alternativos. O final dessa história será trágico, além do inevitável aborto, a menina correrá grande risco de vida.

Agora pense no aborto não como crime, mas como problema de saúde. Pense num programa de aborto oferecido pelo SUS! Pense nessa mesma garota sabendo que sua decisão de abortar não é mais um crime e que ela pode abrir seus sentimentos para as pessoas que ela confia de forma leal e afetiva.

Nesse primeiro momento em que a menina abre a situação com alguém de sua confiança, a probabilidade dela se sentir acolhida, apoiada e repensar a situação, agora com outras pessoas ajudando em seu raciocínio, já aumenta e muito a probabilidade de ela não chegar às vias de fato.

Num segundo momento, se a menina decide ingressar no programa de aborto, a primeira coisa que ela fará obrigatoriamente, é receber apoio psicológico e médico. Com profissionais da área, ela entendera melhor seus sentimentos, suas emoções, as mudanças em seu corpo, os prós e contras do procedimento. A partir desse acompanhamento profissional, a probabilidade dela desistir do procedimento aumenta e muito. Se mesmo depois de receber apoio afetivo de seus familiares e apoio profissional do Estado, ela decidir continuar no programa, ela será submetida a um procedimento de forma segura, que não trará riscos a sua saúde nem sequelas em seu corpo.

Entendem? As políticas pró aborto não é uma autorização para a mulher abortar à vontade, relativizando a vida do feto, e sim um programa que visa dar apoio afetivo, emocional, psicológico e clínico para essa mulher, fazendo com que muitas desistam do processo, e aquelas que prosseguirem, possam fazer de uma forma segura.

A lógica é simples: se você é um pró vida assim como eu, se você está realmente preocupado em diminuir a quantidade de mortes através de abortos, se seus argumentos estão baseados na valorização da vida e não em moralismo religioso, você também deveria ser a favor da descriminalização do aborto.

E deixo aqui algumas últimas reflexões, e seja sincero consigo mesmo para responder:

Se fosse os homens que engravidassem ao invés das mulheres, em nosso país, você acha que aborto ainda seria um crime?

Por que demonizamos e criminalizamos as mulheres que abortam, mas não tratamos dessa mesma forma os homens que abandonam seus filhos?

Você, sendo contra o aborto, quantas crianças já adotou? Já pensou nisso pelo menos?

Que Deus nos dê graça para tratar esse assunto tão crítico.
Pr. João Paulo Berlofa.

 

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